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Retrato de um Natal em família

O Natal despertava nela sentimentos ambíguos. Gostava da decoração, do sabor do panetone, do clima que envolvia a data, das atitudes de caridade. Por outro lado, achava tudo hipócrita e capitalista. Cantarolava alegremente canções natalinas. Porém, tinha ganas de destruir o CD que insistiam em tocar todos os anos nesta época.

A festa de Natal em família também trazia sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que adorava ver toda a família unida, mantendo a tradição iniciada muito antes dela nascer, não suportava ouvir sempre as mesmas cobranças, todos os anos.

Naquela noite de Natal, ela estava ali, mais uma vez, com toda sua família. Dera meia-noite e todos estavam reunidos. Ela, num canto, era simplesmente uma espectadora, não participava do momento. Apenas observava, pensativa. As crianças estavam abrindo seus presentes, entusiasmadas, enquanto os adultos as observavam com ternura e satisfação. Ela se lembrou dos Natais de sua infância dos papéis rasgados no chão e do cheiro de plástico . Lembrou-se da alegria do brinquedo novo e do sorriso dos seus pais e parentes.

Subitamente, lembrou-se dos que não estavam mais ali, mas acreditava que, de certa maneira, estivessem. Não era a mesma coisa... Uma saudade violenta a fez sentir vontade de chorar e ela acabou alienando-se da festa. Desejou que tudo voltasse a ser como era na sua infância, desejou ter por perto aqueles que partiram. Sentiu os olhos úmidos mas, antes que a primeira lágrima rolasse por seu rosto, foi tirada de seu isolamento. "Ei, isto é para você. Feliz Natal!" Pegou o pacote embrulhado em papel colorido e sorriu. Mais uma vez, olhou a cena do seu Natal em família. Gerações iriam e novas gerações viriam. O amor permaneceria ali para sempre.



- Postado por: Chihô às 23h40
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O espírito natalino?

Os pisca-piscas deixavam a cidade mais bonita naquele dia. Por todos os lados, toda a sorte de enfeites natalinos davam um ar mágico, quebrando o cinzendo habitual daquelas ruas. Toda beleza do cenário parecia não prender a atenção dos pedestres, que passavam de um lado para outro, apressadamente, com sacolas nas mãos. Agiam como autômatos.

Em um canto da calçada, quase oculto pela paisagem urbana, um homem estava sentado no chão. Era um senhor de barba longa e branca, e bigode. Vestia roupas puídas, sujas e um gorrinho vermelho sob um boné com propaganda política. Tinha nas mãos um grande saco, onde mexia, tirando objetoso rotos, provavelmente ganhos ou encontrados no lixo.

Da janela do ônibus, eu o observava. O homem lembrava Papai Noel, porém, um Papai Noel miserável, sujo, um excluído. Diferente dos Papais Noéis de barba falsa e sorriso largo que distribuiam doces nas portas das lojas, este homem não despertava simpatia, seque atraía olhares dos passantes. Todos estavam ocupados demais com as compras de fim de ano.

Viessem a caridade e o amor ao próximo em embalagens bonitas, estariam em destaque na vitrine enfeitada de algum shopping. Mas são apenas sentimentos e nenhuma pessoa podia parar de comprar para atentar-se a estes pequenos detalhes...



- Postado por: Chihô às 00h47
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Tão confuso...

Minha percepção do que está ao meu redor é bem estranha. Às vezes, eu consigo ver detalhes minúsculos, em outras, eu simplesmente sou incapaz de enxergar o que está bem à minha frente.  Bom, na verdade, eu vejo o que quero ver, e o que eu não quero, eu apago, fecho meus olhos para o que me desagrada. Mas o que eu vejo porque quero ver nem sempre é real.

Lembro-me de, uma vez, num ônibus, eu ter recebido de uma desconhecida um bilhete com a frase: "O que vemos depende, principalmente, do que queremos ver". Eu acredito que seja isto mesmo, não só comigo, mas com todos. Como diretores das nossas vidas, editamos nossas impressões para termos a sensação de que tudo acontece exatamente como queremos. É um alívio num mundo em que pouca coisa está sob nosso controle. Assim, inconscientemente, escolhemos ver e acreditar só no que está de acordo com o que queremos.

Sabe-se lá porque, acabamos, muitas vezes, entrando em contato com a realidade. No dia em que eu recebi a frase no ônibus, era isto que tinha acontecido. Minhas ilusões sobre algo haviam sido desfeitas e eu estava decepcionada, triste. Sem dizer uma palavra, aquela mulher entregou o papel e sorriu. Foi preciso ler a frase mais de uma vez para perceber que aquilo dizia respeito a mim e àquele momento. Ser jogada na vida real nem sempre é fácil. E a frase continua verdadeira como nunca.

No filme da minha vida, escolho mocinhos e bandidos, escolho galãs e vilões. Quando alguém ousa não seguir o roteiro que tracei, eu fico confusa, porque o filme já estava no meio e na minha sala de projeção particular, os papéis já estavam escolhidos e sendo interpretados. O filme, muitas vezes, não se parece nada com a vida real, mas me dá um alento. A vida real, na maioria das vezes, me prega peças. E assim, entre um susto e outro, uma surpresa e outra, algumas decepções ocasionais, eu vou vivendo...



- Postado por: Chihô às 00h39
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